
Voltamos a falar do Kind of Blue e do gênio de Miles Davis. Certamente a faixa menos melancólica e reflexiva do álbum, Freddie Freeloader é uma homenagem a um “malandro” nova-iorquino amigo dos músicos. Apoiados numa estrutura de blues com abordagem jazzística, os músicos usam como sonoridade principal a escala lídia b7 (ou mixolídia #4), quarto modo da escala menor melódica. (Clique na figura para visualizar.)
O tema exposto pelos sopros é um ótimo exemplo de economia de notas e boa condução de vozes, princípios essências para pensar harmonia no bandolim. Adaptando o tema para nosso instrumento, tiramos lições interessantes. (Clique na figura para visualizar.)
Nos oito primeiros compassos é fácil perceber como executar de forma inteligente acordes de seis notas usando apenas três cordas do bandolim. Com a mudança da posição dentro de um mesmo compasso é possível tocar todas as notas do acorde com um movimento confortável e condução elegante.
Nos quatro compassos finais, Miles opta por usar apenas duas notas para caracterizar o acorde. Obviamente ele escolhe a terça e a sétima (ver post Terças e sétimas), aproveitando os movimentos cromáticos entre as notas.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Kind of blue: Freddie Freeloader
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Fernando N. Duarte
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Kind of blue: So what

Gravado em 1959, Kind of Blue é um dos grandes marcos da história do jazz. Mais do que por suas vendagens astronômicas a cada reedição ou por seu sucesso entre ouvintes não acostumados ao jazz moderno, o álbum é reverenciado por ser o início do chamado jazz modal. Resultado da colaboração do trompetista Miles Davis com outros grandes músicos como Bill Evans e John Coltrane, o trabalho trazia uma série de inovações em relação a escalas, voicing de acordes e na concepção harmônica.
No jazz modal as peças (e os improvisos) são baseadas em escalas, e não numa progressão de acordes. So what, música que abre o disco, é construída sobre o segundo modo da escala maior, o dórico. Ou seja, começando a escala de dó maior pela nota ré você tem uma nova relação de intervalos e uma escala com sonoridade distinta. Os dezesseis primeiros compassos estão em Ré dórico, os oito seguintes em Mib dórico e novamente oito em Ré dórico. (Clique na figura pra visualizar.)
Sobrepondo intervalos de quartas (e não de terças, com usual), o pianista Bill Evans chegou a acordes tão marcantes que ficaram conhecidos como “so what chords”. Em cima da tônica são colocadas três quartas e uma terça, formando um acorde menor com sétima menor e décima primeira.
No exemplo abaixo temos o piano e o baixo nos primeiros compassos da exposição do tema. (Clique na figura pra visualizar.)
No bandolim é necessário fazer uma única e óbvia adaptação do acorde so what: tirar uma nota para caber nas nossas quatro cordas. Tirando a quinta, mantemos as notas essenciais do acorde e os intervalos de quarta, que são a característica mais importante. (Clique na figura pra visualizar.)
Em breve voltamos a falar deste álbum.
Mais sobre Kind of Blue:
- Miles Davis Kind of Blue, editora Hal Leonard. Transcrição dos temas e solos de todos instrumentos.
- The Magic of Miles Davis, Jamey Aebersold. Livro com partituras e cd com as bases de músicas de Miles Davis, incluindo quatro das cinco faixas do Kind of Blue.
- Kind of blue: a história da obra-prima de Miles Davis, de Ashley Kahn.
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Fernando N. Duarte
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Espantosa Simetria: escala de tons inteiros
Intrigantes relações de simetria são encontradas nos pequenos fractais e nos movimentos dos astros. As ciências naturais e matemáticas se deparam com uma intrincada rede de proporções e analogias que os antigos sábios resumiam em “como acima, assim abaixo”.
Na música, a grande ferramenta do pensamento geométrico é o círculo das quintas, recurso usado normalmente apenas pra se deduzir armaduras de clave, mas que pode servir a raciocínios bem mais complexos. No ciclo é possível visualizar intervalos, acordes e escalas simétricas. Para mais detalhes sobre essas relações recomendo o artigo As geometrias do sistema tonal e o mágico mundo do círculo das quintas (link abaixo).
A conversa aqui no blog será sobre algumas digitações e aplicações de escalas simétricas, acordes correspondentes por relações de simetria e algumas soluções particularmente interessantes proporcionada pela nossa afinação em quintas.
Começaremos pela escala de tons inteiros (ou hexafônica), que divide o círculo das quintas em seis partes iguais. Formada apenas de intervalos de um tom, esta escala foi muito usada pelos impressionistas franceses (principalmente por Debussy) e incorporada à linguagem musical de compositores como Garoto e Tom Jobim. Modernamente é aplicada sobre acordes dominantes, preferencialmente aumentados.
Devido a seu caráter simétrico, existem apenas duas escalas de tons inteiros. As outras serão transposições de alguma dessas duas. A escala de tons inteiros de ré é igual à de dó, começando do ré. Assim também a de mi, fá# e assim por diante. (Clique na figura para visualizar.)
No braço do bandolim temos duas opções interessantes de digitação, usando três ou quatro notas por corda. (Clique nas figuras para visualizar.)

Além da sua sonoridade peculiar, a escala de tons inteiros proporciona um ótimo exercício de mecânica, ajudando na abertura dos dedos e no maior conhecimento do braço nas regiões agudas (principalmente na digitação de quatro notas por corda).
Claro que nem sempre estes serão os melhores modelos a aplicar. Dependo do tom e da região do instrumento cordas soltas podem ser usadas ou os modelos de três e quatro notas por corda misturados. (Clique na figura para visualizar.)
Mais sobre simetria:
- As geometrias do sistema tonal e o mágico mundo do círculo das quintas, palestra do pianista e professor Turi Collura (disponível em www.turicollura.com).
- Introdução à estética musical, de Mário de Andrade.
- Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons.
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Fernando N. Duarte
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